Mais um final de semana. Descanso merecido. Folga para relaxar e alimentar a alma - berçário dos nossos comportamentos.
Quanto eu prestei Fuvest (prova da segunda fase, em janeiro de 1993) para ingressar no curso de Engenharia, o tema proposto na prova de redação baseou-se num trecho do conto “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis. Acreditem se quiser: eu tenho guardado, até hoje, o caderno de perguntas, que na época era impresso em papel-jornal... após quase 18 anos o estado de conservação é, obviamente, deplorável, mas continua comigo!!
Abaixo transcrevo o enunciado proposto:
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“Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma Igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. (...) Está claro que (o Diabo) combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie. (...) A Igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. (...) Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano (...) muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, ma com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.”
Nota: embaçar: lograr, enganar.
PROPOSTA DE REDAÇÃO
Este trecho do conto “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis, descreve a necessidade que o homem teria de regras que lhe digam o que fazer e como se comportar. Uma vez conseguido isso, ele passaria a violar secretamente as normas que tanto desejou.
Escreva uma dissertação que analise esta visão que o autor tem do comportamento humano. Você pode discordar ou concordar com ela, desde que seus argumentos sejam fundamentados.
O maior mérito estará numa argumentação coesa capaz de levar a uma conclusão coerente.
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Bom, quando me deparei com esse tema - e eu temia demais a redação!! -, logo relaxei, pois durante grande parte da minha vida tinha lido sobre religião, desde os grandes teólogos protestantes (Morys Cerulo, Billy Graham, Moody, dentre outros), até os críticos mais ferozes. Nunca tive receio de ter contato com pensamentos favoráveis e contrários à minha forma de pensar. É claro, porém, que isso não foi o fator decisivo para a nota que obtive (7,5); devo alertar que o principal elemento garantidor da minha aprovação foi seguir, fielmente, as técnicas de elaboração de dissertação - santo professor Miro!!
Acho que vale a pena vocês treinarem, elaborando uma dissertação como a proposta pela Fuvest em 1993.
Depois de um bom tempo, acabei encontrando aquele conto de Machado de Assis numa coletânea de contos num Sebo (Contos Consagrados de Machado de Assis, Biblioteca Folha, n. 25). Li o conto inteiro, depois todos os outros contos do volume.
Gostaria, nesta oportunidade, de sugerir a leitura de um livro chamado “Deus Existe?”, da editora Planeta, ano de 2009. Esse livro é fruto de um debate acalorado entre o então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, e Paolo Flores d’Arcais, filósofo e jornalista ateu. O debate foi intermediado por Gad Lerner, no Teatro Quirino, em Roma, no ano de 2000.
Abaixo transcrevo um trecho de Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI):
“Na realidade, tenho certeza de que as primeiras gerações do cristianismo não pensavam na fé como um absurdo. É verdade que Paulo fala do “escândalo” da fé, e vemos que o escândalo existe em todas as gerações - até mesmo hoje-, mas, ao mesmo tempo, Paulo prega no Areópago, ou seja, no centro da cultura antiga, da filosofia antiga, em discussão com os filósofos, e cita também filósofos. E, em geral, o início da pregação cristã se dirigia aos denominados phoboumenoi theon, ou seja, grupos de pessoas que haviam se congregado em volta da sinagoga.
O judaísmo teve uma função e uma posição muito importante no mundo antigo, porquanto aquela fé em um único Deus criado se apresentava justamente como a religião racional, que era buscada no momento da crise dos deuses. E, portanto, essa religião se oferecia como uma religião verdadeira e autêntica, não inventada pelos filósofos, mas realmente nascida do coração do homem da luz de Deus, mas, ao mesmo tempo, em correspondência profunda com as convicções racionais daquele período. E, portanto, as pessoas, digamos, “iluminadas” daquele período, em busca de Deus, que já não estavam satisfeitas com as religiões oficiais, as pessoas que buscavam não só uma construção filosófica, mas uma religião autêntica, que porém correspondesse à razão... essas pessoas haviam criado um círculo em torno da sinagoga, e aquele era o mundo em que Paulo podia pregar.”
Por que estou interessado nisso? Pelo seguinte: as religiões, ainda que não percebamos, estão presentes em praticamente todas as formas de pensar, nos valores, nas condutas, na ética, na moral.
Quando enfrentamos um tema qualquer posto em discussão, dificilmente nos despojamos daqueles valores. Não há, praticamente, um debate isento.
Portanto, não adianta fugirmos das discussões acerca das religiões. O melhor, mesmo, é cada vez mais nos inteirarmos - e respeitarmos! - as diversas formas de pensar. Seja o cristianismo - o qual conhecemos, talvez, mais de perto -, seja o hinduismo, o budismo, o judaismo... precisamos compreendê-los o quanto possível, respeitando os limites que as nossas circunstâncias impõem.
O lance é “abrirmos as janelas da nossa mente e contemplarmos a paisagem, sempre pondo em ação nosso maior legado, fruto de alguns milhões de anos de evolução: nossa razão. Desacorrentem, para sempre, a razão!”
Abraços a todos.
Uma postagem interessante,me despertou curiosidade,vou comprar logo esse livro,incrivel como esse debate nunca sai de moda.
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